Livro: A Oração de Jabez (Baixar Livro Grátis)

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Bruce Wilkinson e David Kopp
São Paulo: Editora Mundo Cristão – 2001, 101 pp
Resenha: Heber Carlos de Campos Júnior
Tradução: Por Emirson Justino do original em inglês
The prayer of Jabez

 

Embora David Kopp apareça como colaborador, a autoria do livro e a fama de suas idéias têm sido atribuídas apenas a Bruce Wilkinson. Bruce, quando ainda estudava no Dallas Theological Seminary, fundou Walk Thru the Bible Ministries (Ministério Caminhando Pela Bíblia), uma organização que ensina uma visão global da Escritura livro por livro. Pelo menos nos Estados Unidos, o nome de Bruce Wilkinson tem sido reconhecido devido ao alcance desta organização. Ele é escritor de outros livros (juntos já venderam mais de 15 milhões de cópias), mas nenhum de seus livros teve um alcance tão amplo como este (8 milhões de cópias vendidas no primeiro ano); uma revista o chamou de “o livro de mais rápida vendagem na história”. A Oração de Jabez se manteve no topo de listas de best-sellers em âmbito nacional, ganhou um site próprio  ttp://www.prayerofjabez.com/, e acabou sendo adotado por evangélicos, católicos, fundamentalistas e até não-cristãos. Já no Brasil, a popularidade de A Oração de Jabez não foi tão abrangente, mas os publicadores apostaram que o livro ocuparia espaço razoável dentro das igrejas evangélicas brasileiras (a primeira tiragem foi de 30 mil exemplares). O livro foi incluído como o primeiro da Série Novos Horizontes (versão brasileira de The BreakThrough Series) da Editora Mundo Cristão. O segundo livro da série, já traduzido e publicado, é Segredos da Vinha (mais de 3 milhões de cópias vendidas em todo o mundo). O terceiro foi recentemente lançado nos Estados Unidos: A Life God Rewards (Uma Vida que Deus Recompensa).

A Oração de Jabez é um livreto que pode ser lido numa sentada, isto é, de uma só vez. Primeiro, pela sua leitura fácil e fluente e, segundo, pelo tamanho que facilita esta única jornada de leitura. O tamanho do livro condiz com o texto que o autor vai tratar: 1 Crônicas 4.9 e 10. Se comparado a outros textos bíblicos, esta porção de genealogia tem importância menor no desenvolvimento da história bíblica; tanto é que a totalidade dos comentaristas bíblicos não desenvolve muito suas observações de tal texto, e o restante da Escritura não menciona Jabez ou sua oração como sendo imprescindíveis para uma vida cristã sadia. Contudo, não é isso que Wilkinson pensa sobre a oração de Jabez. No prefácio ele já escreve: “Quero ensinar-lhe como fazer uma oração ousada à qual Deus sempre atende. Ela é breve – uma frase composta de quatro partes – meio escondida na Bíblia, mas creio que ela contém a chave para uma vida extraordinariamente favorecida por Deus. Esta prece mudou radicalmente aquilo que espero de Deus e o que experimento dia após dia pelo seu poder. O fato é que milhares de cristãos que têm aplicado estas verdades em suas vidas estão vendo milagres acontecerem constantemente” (p. 7).

Já nesta introdução bombástica podemos detectar o porque esse livro alcançou tanto sucesso: (a) público-alvo escolhido (“milhares de cristãos”, gente comum), (b) promessas feitas (fórmula fácil e prática para “uma vida extraordinariamente favorecida por Deus”), e (c) terminologia utilizada (“poder”, “milagres”). Primeiramente, Bruce Wilkinson escolhe um personagem comum para falar a pessoas comuns (cap. 1). Jabez é pessoa pouco conhecida na Bíblia, alguém com quem os leitores podem se identificar. Pessoas com vida corriqueira gostam de ser desafiados a uma vida de ousadia (p. 52). Além do mais, o próprio Wilkinson diz que muitos foram abençoados pelos princípios dessa história (p. 12) e não só pessoas talentosas e mui dotadas. Em segundo lugar, Wilkinson coloca a oração de Jabez como a razão de ter se tornado mais ilustre que os irmãos, não pela piedade que a oração apresenta (o que seria bom ensinamento) mas pelos elementos que a compõem (p. 15). Assim, aquele que orar exatamente a oração de Jabez diariamente terá alcançado a chave do contínuo sucesso espiritual. Dizer que “Deus lhe reserva uma enorme quantidade de bençãos não pedidas, todas a sua espera” (p. 18) e depois apresentar o pedido que desencadeia todas essas bênçãos é o tipo de ensinamento que cativa os evangélicos pragmáticos. Em terceiro lugar, a linguagem é inspiradora sem ser pentecostal. Quando fala de milagres ele não se refere a curas, mas a acontecimentos extraordinários que Deus traz à sua vida de tempos em tempos (p. 47-48). A benção de Deus é vista como algo de caráter sobrenatural, que não conseguiríamos com nosso próprio esforço (p. 25). Wilkinson enfatiza bastante o sobrenatural (p. 58, 79).

A suma do livro é imitar a oração de Jabez a fim de receber grandes bênçãos e realizar grandes feitos para Deus. Ao expor o seu raciocínio, Wilkinson apresenta alguns pontos positivos misturados com teologia evangélica ruim. Primeiro, o livro é criativo e bem aplicativo – qualidades de um bom pregador -, mas coloca nas mãos do leitor uma capacidade de resolver os seus problemas que o ser humano não tem. Wilkinson diz que o motivo de não sermos abençoados como Jabez é porque não as pedimos (p. 29). “A liberalidade de Deus é limitada somente por nós” (p. 31), como se dependesse de nós o ser abençoado (p. 66); Deus espera o nosso convite para derramar as suas muitas bênçãos (p. 45, 92). Acontece que Paulo nos ensina que Deus nos dá mais do que pedimos ou pensamos (Ef 3.20). Deus não deixa de nos abençoar por não lhe pedirmos; Ele providencia mais do que lembramos de pedir. Segundo, no capítulo 2 ele coloca alguns dados do contexto histórico e da exegese que são interessantes e elucidativos. No entanto, sua hermenêutica não trabalha em cima desses dados mas de forma alegórica. Como exemplo disso, no capítulo 3 ele interpreta a frase “me alargues as fronteiras” como um pedido de ministério mais amplo. Terceiro, sua exortação para que as orações sejam direcionadas para o serviço antes que para desejos pessoais é muito oportuna; Bruce nos leva a orar para alcançar mais vidas (p. 35).

Todavia, Wilkinson pinta a vida cristã de forma parcial, pois fala da oração de Jabez trazendo bênçãos e ministério cada vez mais crescente e, no entanto, nem se mencionam as dificuldades reais na vida do crente que deveriam levá-lo a uma vida de oração. Coloca a atitude de Jabez como sendo pedir o que Deus quer nos dar (p. 26), o que parece ser submissão à soberania de Deus, mas o autor não coloca ‘espinhos na carne’ como inclusos na vontade de Deus para nossas vidas. Mostra-se triunfalista ao ensinar que a vida cristã deve ser composta de milagres e grandes oportunidades de serviço. Bruce se esquece que a vida simples também agrada a Deus. Ele diz: “Você não precisa de Deus para dar pequenos passos” (p. 48). Precisa sim! Em quarto lugar, o autor destaca a dependência de Deus (p. 54) inclusive diante das tentações (cap. 5). Contudo, a soberania de Deus pára por aí. Bruce coloca Deus na obrigação de sempre atender às nossas orações, quase como se esposasse teologia da prosperidade (mas ele nega isso, p. 26). Enfatiza a maneira correta de Jabez orar sem considerar a soberania de Deus em responder. É como se Jabez tivesse sido mais ilustre porque descobriu o jeito certo de orar. A expectativa criada pode trazer desapontamento àqueles que fizeram a oração modelo de Jabez e Deus disse ‘não’ ou ‘espera’. Nem a oração de Jabez e nenhuma outra tem habilidade inerente para destravar o poder de Deus na vida cristã. Em quinto e último lugar, o seu livro traz ao cristão moderno a importância da oração na vida do crente. Porém, Bruce Wilkinson faz da oração de Jabez um ‘mantra’ que deve ser repetido palavra por palavra (cap. 7). Ele encoraja os leitores a repetirem as palavras dessa oração diariamente, como uma fórmula mágica. Ao invés de mostrar a oração como sendo uma conformação de nossa vontade à soberana vontade de Deus, o autor cria um misticismo ao redor da oração de Jabez como se sua repetição garantisse sucesso espiritual. Quem atende a essa sugestão corre o risco de cair em vãs repetições (Mt 6.7). Além disso, como poderia a oração de Jabez substituir a oração que Jesus nos ensinou como modelo de oração (Mt 6.9-13)? O que é que a oração de Jabez tem que as orações de Paulo e as belas orações dos fiéis do Antigo Testamento (Exs: 1 Sm 2; 2 Cr 6; Ed 9; Ne 9; Sl 51; Dn 9) não têm?

Concluo apresentando verdades do texto bíblico as quais julgo que Bruce Wilkinson não deu suficiente atenção. A primeira é que Jabez destacou-se entre os demais de Judá sendo alguém com uma marca negativa em sua vida. O seu nome, o qual significa ‘ele causará dor’, indicava uma possível deficiência física decorrente do nascimento traumático ou ao menos um nome triste como sua identidade. O fato dele se tornar mais ilustre que seus irmãos nos ensina que Deus cuida dos desfavorecidos. Deus se importa com gente simples, humilde e desprezada (1 Co 1.26-29). A segunda verdade é que é lícito orar tanto por bênçãos materiais quanto por espirituais. O primeiro dos três pedidos de Jabez é de caráter material e os outros dois são de caráter espiritual. A terceira verdade é que a personagem principal desse texto é Deus, e não Jabez.

Deus é que concedeu a benção e não Jabez que a conseguiu. O escritor de Crônicas quer nos dizer que não havia nada de especial com o homem chamado Jabez. Ele simplesmente procurou o Deus correto. Deus é quem merece destaque.

Não podemos falar desse texto além do que ele próprio diz. Mas é possível pregar nele, com verdades profundas além das mencionadas, sem ensinar má teologia.

Heber Carlos de Campos Júnior